A exposição Desenhários irá percorrer 15 escolas municipais de Criciúma, junto aos trabalhos os professores irão receber um DVD com relatos de cada artista sobre desenho e sua obra. Para sintetizar melhor minha fala, estou publicando aqui o texto escrito pela curadora Helene Sacco.

DESENHÁRIOS
Onde o desenho se cria? Haveria um lugar anterior a folha de papel? Um lugar em potência, antes mesmo do primeiro traço? Quantas vezes ensaiamos as linhas, as formas, as palavras, num lugar que ainda não é folha? Esse lugar é o pensamento, certamente numa potência máxima, que supera a toda prova o vazio, a não matéria, o branco, a inexistência, a não-ideia, ou até mesmo todas elas como uma possibilidade de existência, pois em pensamento “ talvez tudo” seja possível. O lugar onde o pensamento ganha corpo mínimo se chama desenho. Muitas vezes nasce frágil ao cuidado da mão, que teme e por vezes aceita o erro, mas é nesse lugar que tudo se torna possível. A maior prova é o uso tão peculiar que arte e ciência fazem do desenho.
Os Desenhários são espécies de objetos que guardam em latência uma ideia, quase como partitura, projeto, rascunho de algo que ainda virá, do que ainda não é, mas pode vir a ser. Enquanto objeto, se coloca como lugar fundado para pensar através do desenho. O que vemos não é o espaço do pensamento, a esse não cabe representação, pois sem fronteiras, formas e medidas, qualquer tentativa de aproximação seria ainda muito distante. O que vemos é sim uma homenagem ao pensamento criador, um pensamento que ao ser desenho cria a fronteira que vira linha de uma primeira forma. O que os Desenhários captam e guardam são uma centelha, partícula mínima do movimento da atividade criadora, algo próximo de um segundo extraído de um filme. Provavelmente seja possível imaginar a etapa posterior ou talvez a anterior, até mesmo o primeiro passo, já que criação possui uma familiaridade muito grande com a palavra vida, e vida é duração. Os Desenhários, em sua duração mínima comprovam que é criando que a vida se torna possível, pois supera, resolve, resiste, responde, cria a fronteira e a ultrapassa e, só assim instaura o novo.
Desenhários trata-se de uma bricolagem de palavras e sentidos, entre desenho-armário-diário, todos eles objetos que guardam. O desenho como objeto reúne em si mil pensamentos, experiências, memórias, recusas, dilemas e superações em forma de linha. O armário, arma, organiza, protege, assim como o diário que numa cronologia singular, cria uma narrativa de um vir a ser, trabalho em processo que utiliza esse suporte como matéria de passagem, plasmando algo que foi ou ainda será. Como sabemos disso? Desenhando!
Helene Sacco
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